Corações em Crise
Hoje uma das meninas (jurei que não diria qual delas) chegou aqui como se tivesse desenvolvido uma miopia aguda da noite para o dia. Vindo de uma escriba que convive com a miopia desde os 15 anos, isso quer dizer que ela parecia não ter completado o processo matinal do despertar, olhar perdido, não conseguia focar em nada nem ninguém. Se começo o dia sem os óculos ou as lente desenvolvo uma espécie específica e especial de dor de cabeça – e estava desse jeito a cara dela, cara de dor de cabeça, dessa dor de cabeça especial e específica.
Mas não era nada disso que tinha acontecido com ela, como eu imediatamente diagnostiquei, já que ela não usa óculos nem lente. O problema estava mais embaixo: no coração. De casamento marcado para daqui a cinco meses, ela teve um insight, uma revelação, que jurou estar sendo gestada há semanas, até meses – embora eu não tenha percebido absolutamente nada. A pobre está seriamente desconfiada de que não ama mais o futuro marido e isso, naturalmente, instalou o caos em sua cabecinha.
Como trabalhar com um dilema desses pendurado sobre a cabeça? Responda sinceramente: dá para falar em foco, em compartimentalização, em pró-atividade num momento desses? Se a TPM pode ser mesmo atenuante num processo de assassinato, se existe a licença de casamento, não devia também ser decretado o direito de “dar um tempo” para pelo menos digerir um susto como esse? Um dia para passar inteirinho dormindo, ou dentro do cinema, no parque, comprando loucamente, fazendo uma repaginada no salão, conversando com a até então cara-metade para tentar clarear o horizonte?
Bem, de certa forma somos privilegiadas, porque temos acesso a um remédio deveras eficiente para crises como essa: nada como mergulhar numa reportagem sobre relacionamentos – novos, velhos, bons, ruins, alternativos, extra-conjugais, apaixonados. Pode ser dolorido, mas acaba botando tudo de novo em perspectiva e fica mais fácil entender, decidir, curar.
Vamos em frente!
Bjs, Pats.




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